Uma ferida na perna que não fecha — semanas, meses, às vezes anos. Esse é o cenário que muitos pacientes com úlcera venosa enfrentam antes de chegar a um diagnóstico correto. A úlcera venosa é a complicação mais grave da insuficiência venosa crônica não tratada, e ainda é muito mal compreendida tanto por pacientes quanto por familiares.
Neste artigo, você vai entender o que é a úlcera venosa, por que ela aparece, como identificar os sinais de alerta precoces, quais são as opções de tratamento e — principalmente — o que fazer para evitar que chegue a esse estágio.
O que é úlcera venosa?
A úlcera venosa — também chamada de úlcera varicosa ou úlcera de estase — é uma ferida aberta que se forma na pele da perna, geralmente na região próxima ao tornozelo, como consequência de uma pressão venosa cronicamente elevada.
Para entender por que ela aparece, é preciso entender o que acontece antes. Na insuficiência venosa crônica, as válvulas das veias das pernas perdem a capacidade de funcionar corretamente, e o sangue começa a se acumular nas veias em vez de retornar ao coração. Com o tempo, essa pressão elevada — chamada de hipertensão venosa — começa a danificar os tecidos ao redor: a pele fica mais fina, pigmentada e frágil, e o tecido subcutâneo endurece. Nesse ambiente comprometido, qualquer pequena agressão — um arranhão, uma picada de inseto, uma pressão leve — pode originar uma ferida que o organismo simplesmente não consegue cicatrizar.
A úlcera venosa é, portanto, o estágio final de um processo que começa anos antes com varizes, inchaço e alterações de pele — e que poderia ter sido interrompido com tratamento adequado.
Qual é a causa da úlcera venosa?
A causa direta é a hipertensão venosa crônica: o acúmulo de pressão dentro das veias superficiais e profundas das pernas, resultante do refluxo venoso causado pela falência das válvulas. Essa pressão excessiva:
- Reduz o fluxo de oxigênio e nutrientes para a pele e os tecidos ao redor das veias
- Causa inflamação crônica local
- Leva ao espessamento e endurecimento da pele (lipodermatoesclerose)
- Compromete a capacidade de cicatrização do tecido
- Cria um ambiente onde feridas surgem com facilidade e não conseguem fechar
A grande maioria das úlceras de perna — estima-se entre 70% e 80% — tem origem venosa. As demais causas incluem insuficiência arterial, diabetes e outras condições sistêmicas. Essa distinção é clinicamente importante porque o tratamento é completamente diferente para cada origem.
Quem tem maior risco de desenvolver úlcera venosa?
A úlcera venosa é a expressão máxima da insuficiência venosa crônica avançada. Os fatores de risco são, portanto, os mesmos da doença venosa crônica — com destaque para os casos em que o tratamento foi adiado ou não foi realizado adequadamente:
- Insuficiência venosa crônica de longa data, especialmente graus C4, C5 e C6 na classificação CEAP
- Histórico de trombose venosa profunda — a TVP causa dano permanente às válvulas venosas profundas, uma das principais causas de IVC grave. Leia mais sobre trombose venosa profunda
- Varizes de grande volume não tratadas
- Obesidade — aumenta a pressão sobre o sistema venoso dos membros inferiores
- Imobilidade prolongada — sedentarismo grave ou doenças que limitam a deambulação
- Idade avançada — a prevalência aumenta significativamente acima dos 65 anos
- Episódios anteriores de úlcera venosa — a recorrência é alta quando a causa subjacente não é tratada
Como reconhecer os sinais de alerta antes da úlcera se formar
A úlcera venosa raramente surge sem avisos. A pele passa por alterações progressivas que, quando identificadas precocemente, permitem intervir antes que a ferida se abra. Esses são os sinais de alerta que não devem ser ignorados:
| Sinal | O que representa | Urgência |
|---|---|---|
| Pigmentação escura ao redor do tornozelo | Depósito de hemossiderina por extravasamento de hemácias — sinal de hipertensão venosa crônica | Alta — buscar avaliação |
| Pele ressecada, descamativa ou com coceira intensa | Eczema venoso — inflamação da pele causada pela pressão venosa elevada | Alta — buscar avaliação |
| Endurecimento e espessamento da pele (lipodermatoesclerose) | Fibrose do tecido subcutâneo — a pele perde elasticidade e capacidade de cicatrização | Muito alta — avaliação urgente |
| Atrofia branca (manchas brancas com vasos ao redor) | Sinal de isquemia local grave — risco iminente de úlcera | Muito alta — avaliação urgente |
| Edema persistente que não melhora com repouso | Acúmulo crônico de líquido — indicativo de IVC avançada | Alta — buscar avaliação |
Se você percebe qualquer um desses sinais — especialmente a pigmentação escura e o endurecimento da pele — procure um cirurgião vascular antes que a úlcera se abra. Essa janela de intervenção é preciosa.
Como é a úlcera venosa: características clínicas
Quando a úlcera já está formada, ela tem características bastante típicas que ajudam o especialista no diagnóstico diferencial:
- Localização: quase sempre na região do tornozelo e terço inferior da perna, especialmente no maléolo medial (parte interna do tornozelo) — área de maior pressão venosa
- Bordas: irregulares, com tecido ao redor espessado e pigmentado
- Leito da ferida: pode variar de vermelho vivo (granulação) a amarelado (fibrina) ou escurecido em casos de necrose
- Exsudato: geralmente com secreção moderada a intensa
- Dor: variável — algumas úlceras venosas são pouco dolorosas, outras causam dor significativa, especialmente quando infectadas
- Edema ao redor: quase sempre presente
- Varizes visíveis: frequentemente associadas à úlcera
Uma ferida na perna que não cicatriza em 2 semanas deve sempre ser avaliada por um médico. Não tente tratar em casa indefinidamente — o diagnóstico correto da causa é indispensável para o tratamento funcionar.
Úlcera venosa ou arterial? A diferença importa para o tratamento
Distinguir a úlcera venosa da úlcera arterial (isquêmica) é fundamental, porque os tratamentos são opostos — e confundir os dois pode ser perigoso. A compressão, pilar do tratamento venoso, é contraindicada na úlcera arterial.
| Característica | Úlcera venosa | Úlcera arterial |
|---|---|---|
| Localização típica | Tornozelo, maléolo medial | Dedos, calcanhar, proeminências ósseas |
| Bordas | Irregulares, rasas | Bem definidas, profundas |
| Pele ao redor | Pigmentada, espessada, edemaciada | Fria, pálida ou cianótica, sem pelos |
| Dor | Moderada, melhora com elevação | Intensa, piora com elevação — melhora pendente |
| Pulsos periféricos | Presentes | Ausentes ou diminuídos |
| Exsudato | Moderado a intenso | Escasso |
| Causa principal | Insuficiência venosa crônica | Doença arterial periférica |
O diagnóstico diferencial é feito pelo cirurgião vascular com avaliação clínica e exames complementares — incluindo o ultrassom Doppler arterial e venoso — que permitem identificar a origem da lesão com precisão.
Como é feito o diagnóstico da úlcera venosa?
O diagnóstico começa pela avaliação clínica detalhada: histórico da ferida, tempo de evolução, doenças associadas, exame físico das pernas e da úlcera. O exame complementar essencial é o ultrassom Doppler venoso, que identifica o refluxo venoso, mapeia as veias comprometidas e confirma a origem venosa da lesão.
Em casos selecionados, pode ser necessário avaliar também a circulação arterial — especialmente em pacientes idosos, diabéticos ou com fatores de risco cardiovascular — para excluir componente arterial associado antes de iniciar a compressão.
O check-up vascular completo é o ponto de partida ideal para qualquer paciente com sinais de doença venosa avançada ou com feridas de difícil cicatrização nas pernas.
Tratamento da úlcera venosa
O tratamento da úlcera venosa tem dois objetivos simultâneos e igualmente importantes: cicatrizar a ferida aberta e tratar a causa subjacente — a insuficiência venosa. Tratar apenas a ferida sem corrigir o refluxo venoso é uma das principais razões pelas quais as úlceras recidivam.
Terapia de compressão
É a base do tratamento conservador e o recurso com maior evidência científica para a cicatrização de úlceras venosas. A compressão reduz a pressão venosa nas veias superficiais, melhora o retorno venoso e cria condições para que a ferida cicatrize. Pode ser realizada com:
- Bota de Unna — atadura impregnada com óxido de zinco, aplicada pelo profissional de saúde e trocada semanalmente
- Sistemas de compressão multicamada — combinação de ataduras que oferecem pressão sustentada e progressiva
- Meias de alta compressão — após a cicatrização, para manutenção e prevenção de recidiva
A pressão e o tipo de compressão devem ser prescritos pelo médico. O uso incorreto pode ser prejudicial, especialmente se houver componente arterial associado. Saiba mais sobre meias de compressão.
Cuidado local da ferida
O manejo do leito da ferida envolve a escolha de coberturas adequadas ao tipo de tecido presente — coberturas com alginato para feridas com muito exsudato, coberturas com prata para feridas infectadas, coberturas de hidrofibra para desbridamento. O protocolo específico é definido pelo médico e pela equipe de enfermagem especializada em curativos.
Em alguns casos, pode ser necessário o desbridamento — remoção do tecido necrótico ou fibrinoso que impede a cicatrização — realizado de forma cirúrgica, enzimática ou mecânica, conforme a condição da ferida.
Tratamento do refluxo venoso — a etapa mais importante
Enquanto a causa do problema — o refluxo venoso — não for corrigida, a tendência é que a úlcera não cicatrize ou recidive após o fechamento. O tratamento do refluxo venoso pode incluir:
- Laser endovenoso ou radiofrequência endovenosa — para fechamento das veias safenas com refluxo, de forma minimamente invasiva. Saiba mais sobre o laser endovenoso
- Escleroterapia com espuma ecoguiada — indicada para varizes tributárias e em situações onde os procedimentos endovenosos são complementados
- Cirurgia convencional — em casos selecionados com anatomia desfavorável para os procedimentos minimamente invasivos
Estudos demonstram que o tratamento do refluxo venoso durante o processo de cicatrização da úlcera acelera o fechamento da ferida e reduz drasticamente as taxas de recidiva. A abordagem combinada — compressão + tratamento do refluxo — é o padrão atual de cuidado em centros de referência.
Antibióticos
Toda úlcera crônica tem colonização bacteriana — isso é esperado e não indica necessariamente infecção. O uso de antibióticos sistêmicos só é indicado quando há sinais de infecção ativa: aumento de dor, calor, eritema ao redor, secreção purulenta, febre ou piora rápida da ferida. O uso indiscriminado de antibióticos em úlceras crônicas não acelera a cicatrização e favorece resistência bacteriana.
Terapias adjuvantes
Em úlceras de difícil cicatrização, podem ser utilizadas terapias complementares como:
- Terapia por pressão negativa (VAC) — aspiração controlada que promove granulação tecidual
- Enxerto de pele — em úlceras extensas ou de longa data, o enxerto pode acelerar o fechamento após controle do refluxo venoso
- Coberturas com fatores de crescimento ou matrizes dérmicas — para casos selecionados de difícil cicatrização
Quanto tempo leva para uma úlcera venosa cicatrizar?
Depende do tamanho, do tempo de evolução, do grau de comprometimento venoso e da adesão ao tratamento. Com tratamento adequado — compressão eficaz e correção do refluxo —, a maioria das úlceras venosas cicatriza em 12 a 24 semanas. Úlceras de longa data, muito extensas ou com infecção associada podem levar mais tempo.
Sem tratamento da causa subjacente, a úlcera tende a fechar e reabrir ciclicamente — um padrão que impacta profundamente a qualidade de vida e pode durar anos ou décadas.
Como prevenir a úlcera venosa
A prevenção é sempre mais eficaz — e mais simples — do que o tratamento. As medidas principais são:
- Tratar a insuficiência venosa crônica precocemente — antes que evolua para alterações de pele e úlceras
- Usar meias de compressão conforme prescrição médica, especialmente em pacientes com IVC estabelecida
- Manter atividade física regular — caminhada e exercícios que ativem a bomba muscular da panturrilha
- Controlar o peso corporal
- Evitar trauma na pele das pernas — especialmente em pacientes com pele já comprometida por alterações venosas
- Hidratar a pele ao redor das varizes e nas áreas de risco
- Realizar acompanhamento periódico com cirurgião vascular — para monitorar a evolução da doença venosa
Pacientes que já tiveram úlcera venosa devem manter o uso de compressão permanentemente e o acompanhamento regular, pois o risco de recidiva é alto quando os cuidados são abandonados.
Perguntas frequentes sobre úlcera venosa
Úlcera venosa tem cura?
A ferida em si pode ser cicatrizada com tratamento adequado. No entanto, a causa — a insuficiência venosa crônica — é uma condição crônica que precisa de manejo continuado. Sem tratar o refluxo venoso e sem manter os cuidados preventivos, a taxa de recidiva (reabertura da úlcera) é alta. Com o tratamento correto, incluindo a correção do refluxo, é possível alcançar cicatrização duradoura e prevenir novas úlceras.
Úlcera venosa pode virar câncer?
Úlceras crônicas de muito longa data — especialmente com mais de 10 anos de evolução — têm risco aumentado de sofrer transformação maligna (úlcera de Marjolin), mas isso é raro. Qualquer mudança de aspecto em uma úlcera crônica — crescimento rápido, borda elevada, tecido friável — deve ser avaliada com biópsia. Mais um motivo para não deixar a úlcera sem acompanhamento médico.
Por que a úlcera venosa não cicatriza?
A principal razão é a hipertensão venosa persistente: enquanto a pressão elevada dentro das veias não for corrigida, o tecido ao redor da ferida permanece em estado inflamatório crônico e sem condições de cicatrizar normalmente. Outros fatores que dificultam a cicatrização incluem infecção local, desnutrição, imobilidade, diabetes e uso incorreto das coberturas. O tratamento eficaz precisa abordar todos esses fatores simultaneamente.
Posso tratar a úlcera venosa em casa?
Os curativos de manutenção podem ser realizados em casa após orientação da equipe de saúde. No entanto, o diagnóstico, a prescrição do esquema de compressão e o tratamento do refluxo venoso precisam ser realizados e acompanhados por um médico — de preferência cirurgião vascular. Tratar em casa sem diagnóstico correto pode retardar a cicatrização ou piorar a situação.
A úlcera venosa dói?
A dor varia bastante entre os pacientes. Algumas úlceras venosas causam pouca dor; outras, especialmente quando infectadas ou com necrose associada, podem ser muito dolorosas. A dor tende a melhorar com a elevação das pernas e com a compressão adequada — comportamento oposto à úlcera arterial, em que a elevação piora a dor.
Qual médico trata úlcera venosa?
O especialista principal é o cirurgião vascular, que realiza o diagnóstico, avalia o refluxo venoso e indica o tratamento da causa subjacente. O manejo da ferida em si pode ser realizado em parceria com enfermeiros especializados em curativos e estomaterapeutas. Em casos complexos, pode ser necessária equipe multidisciplinar com dermatologistas, fisioterapeutas e, eventualmente, cirurgiões plásticos para enxerto.
Úlcera venosa pode afetar quem tem varizes?
Sim. As varizes são uma das principais causas de insuficiência venosa crônica — e a úlcera venosa é a complicação mais grave da IVC não tratada. Pacientes com varizes de grande volume, longa evolução e sem tratamento têm risco aumentado de desenvolver úlcera venosa, especialmente se tiverem outros fatores de risco associados. Esse é um dos principais motivos para não adiar o tratamento das varizes.
Úlcera venosa não é fatalidade — é consequência de doença tratável
A mensagem mais importante deste artigo é esta: a úlcera venosa é o desfecho final de uma doença que, na grande maioria dos casos, poderia ter sido tratada muito antes. Varizes, insuficiência venosa crônica, alterações de pele — cada um desses estágios é uma oportunidade de intervenção que, quando aproveitada, evita que o paciente chegue ao estágio da úlcera.
Se você já apresenta sinais de alerta — pigmentação escura, pele espessada, edema persistente — ou se já tem uma ferida que não está cicatrizando, procure avaliação com um especialista o quanto antes.
Na Clínica EVAS, realizamos avaliação vascular completa com mapeamento por ultrassom Doppler, identificando o refluxo venoso e planejando o tratamento mais adequado para cada estágio da doença — do início à prevenção das complicações mais graves. Atendemos em São Paulo, Londrina e Rio de Janeiro. Agende sua consulta e cuide das suas veias com quem é referência em saúde vascular.

