Aneurisma de aorta abdominal: quem deve rastrear e por quê

Publicado 4 de novembro de 2026
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Aneurisma de aorta abdominal: quem deve rastrear e por quê

O aneurisma de aorta abdominal é uma das poucas doenças vasculares graves que podem ser descobertas com um exame simples, rápido e sem radiação, muito antes de causar qualquer problema. E isso importa porque, na maioria das vezes, ele não dá sintomas: cresce em silêncio por anos e só se manifesta quando se rompe, situação em que o risco de morte é muito alto.

Neste artigo, explicamos o que é o aneurisma de aorta abdominal, quem deve fazer o rastreamento segundo as principais diretrizes internacionais, como é o exame e o que acontece se uma dilatação for encontrada.

Resposta rápida: o rastreamento de aneurisma de aorta abdominal é indicado principalmente para homens de 65 a 75 anos que fumam ou já fumaram, e para homens e mulheres a partir dos 50 anos com pai, mãe ou irmão que teve aneurisma de aorta. O exame recomendado é o ultrassom (com ou sem Doppler) da aorta abdominal, feito em poucos minutos e sem radiação. Outros grupos, como homens que nunca fumaram, podem ser rastreados de forma individualizada, conforme avaliação do cirurgião vascular.

O que é o aneurisma de aorta abdominal?

A aorta é a maior artéria do corpo. Ela sai do coração, desce pelo tórax e atravessa o abdômen até se dividir nas artérias ilíacas, que levam sangue para a pelve e as pernas. Em adultos, o trecho abdominal costuma medir cerca de 2 cm de diâmetro.

Chamamos de aneurisma de aorta abdominal (AAA) a dilatação permanente desse trecho quando o diâmetro chega a 3,0 cm ou mais, ou quando supera em 50% o calibre esperado. Na grande maioria dos casos, a dilatação fica abaixo das artérias renais (aneurisma infrarrenal) e está ligada ao enfraquecimento degenerativo da parede arterial, processo acelerado pelo cigarro, pela idade e pela pressão alta.

Os aneurismas de aorta abdominal respondem pela maior parte de todos os aneurismas de aorta e, com frequência, são descobertos por acaso, em um ultrassom ou tomografia pedidos por outro motivo.

Por que rastrear uma doença que não dá sintomas?

O risco está na ruptura

Um aneurisma pequeno não costuma doer, não causa inchaço e não altera exames de sangue. O problema é que a parede dilatada tende a crescer com o tempo e, quanto maior o diâmetro, maior o risco de ruptura. Quando o aneurisma se rompe, a hemorragia interna é maciça: a mortalidade associada pode chegar a 75% a 90%, considerando os pacientes que nem chegam ao hospital.

Já o tratamento planejado (eletivo), feito antes da ruptura, tem risco muito menor. É exatamente essa diferença que justifica o rastreamento: encontrar o aneurisma enquanto ainda há tempo de acompanhar e, se necessário, corrigir com segurança.

O que a ciência mostra sobre o rastreamento

Grandes estudos randomizados, conduzidos no Reino Unido, na Dinamarca e na Austrália com mais de 125 mil participantes, mostraram que convidar homens a partir dos 65 anos para um ultrassom único reduz a mortalidade por aneurisma. Países como Suécia e Reino Unido mantêm programas nacionais que convidam todos os homens aos 65 anos para o exame. No Brasil, o rastreamento depende da solicitação médica individual, o que torna ainda mais importante que o paciente conheça seu próprio risco.

Em resumo: o rastreamento não previne o aneurisma, mas muda o desfecho. Ele transforma uma emergência com alta letalidade em uma condição conhecida, monitorada e tratada no momento certo.

Quem deve fazer o rastreamento de aneurisma de aorta abdominal?

As recomendações variam um pouco entre as sociedades médicas, mas convergem em um ponto: o rastreamento faz mais sentido nos grupos em que o aneurisma é mais frequente. A tabela abaixo resume as principais diretrizes.

GrupoUSPSTF (EUA, 2019)Sociedades de cirurgia vascular (ESVS 2024 / SVS 2018)
Homens de 65 a 75 anos que fumam ou já fumaramRastrear uma vez com ultrassom (grau B)Rastrear
Homens de 65 a 75 anos que nunca fumaramOferecer de forma seletiva, conforme o perfil de risco (grau C)Considerar, sobretudo com outros fatores de risco
Parentes de primeiro grau de quem teve aneurismaNão há recomendação específica para homens; evidência insuficiente para mulheresRastrear homens e mulheres a partir dos 50 anos (ESVS 2024)
Mulheres de 65 a 75 anos que fumam ou já fumaramEvidência insuficiente para recomendar a favor ou contra (grau I)Avaliação individualizada
Mulheres que nunca fumaram e sem histórico familiarNão rastrear de rotina (grau D)Não rastrear de rotina

Homens de 65 a 75 anos que fumam ou já fumaram

É o grupo com maior benefício comprovado. Nessa população, o aneurisma aparece em cerca de 6% a 7% das pessoas. Para as diretrizes, “já fumou” significa ter consumido pelo menos 100 cigarros ao longo da vida, ou seja, inclui ex-fumantes que pararam há décadas. Para esses homens, um único ultrassom normal costuma ser suficiente.

Homens que nunca fumaram

Sem histórico de tabagismo, a frequência de aneurisma cai para cerca de 2%, e o benefício de rastrear todos fica menor. Por isso, a recomendação é individualizar: hipertensão, doença arterial em outros territórios (coronárias, carótidas, pernas), colesterol alto e histórico familiar pesam a favor do exame.

Pessoas com parente de primeiro grau com aneurisma

Ter pai, mãe, irmão ou irmã com aneurisma de aorta abdominal aproximadamente dobra o risco de desenvolver a doença. A diretriz europeia de 2024 recomenda o rastreamento para homens e mulheres a partir dos 50 anos nessa situação, independentemente do tabagismo. Se alguém da sua família foi operado de aneurisma de aorta, vale levar essa informação à consulta.

E as mulheres?

O aneurisma é de quatro a seis vezes menos comum em mulheres e costuma surgir cerca de dez anos mais tarde. Por outro lado, quando aparece, tende a crescer mais rápido e tem maior risco de ruptura em diâmetros menores. Por isso, mulheres que fumam ou fumaram, têm histórico familiar ou doença cardiovascular estabelecida devem conversar com o cirurgião vascular sobre a indicação do exame.

Fatores de risco para aneurisma de aorta abdominal

  • Tabagismo atual ou passado: é o principal fator de risco modificável, ligado tanto ao surgimento quanto ao crescimento do aneurisma.
  • Idade acima de 65 anos: a parede da aorta perde fibras elásticas com o envelhecimento.
  • Sexo masculino.
  • Histórico familiar de aneurisma de aorta em parente de primeiro grau.
  • Hipertensão arterial não controlada, que aumenta a tensão sobre a parede do vaso.
  • Aterosclerose e doença cardiovascular, como infarto prévio, doença carotídea ou doença arterial periférica.
  • Colesterol elevado e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).
  • Outros aneurismas periféricos, como os da artéria poplítea, atrás do joelho.

Curiosamente, o diabetes está associado a um risco menor de aneurisma de aorta abdominal, embora aumente o risco de outras doenças arteriais. Isso mostra por que a avaliação precisa ser feita por um especialista, olhando o conjunto do paciente.

Como é feito o exame de rastreamento

Ultrassom de aorta abdominal: rápido, indolor e sem radiação

O exame de escolha para rastrear o aneurisma é o ultrassom da aorta abdominal, frequentemente realizado como Doppler de aorta e ilíacas. O paciente fica deitado, o médico passa o transdutor com gel sobre a barriga e mede o diâmetro da aorta em diferentes pontos. O exame leva poucos minutos, não usa contraste nem radiação e tem alta precisão para identificar a dilatação.

Em geral, recomenda-se jejum de algumas horas para reduzir os gases intestinais, que podem atrapalhar a visualização. A orientação exata é dada no agendamento.

Quando a angiotomografia entra

A angiotomografia não é usada para rastrear, mas é fundamental quando o aneurisma já está próximo do tamanho de tratamento, pois mostra em detalhes a anatomia necessária para planejar o reparo.

CaracterísticaUltrassom / Doppler de aortaAngiotomografia de aorta
Papel principalRastreamento e acompanhamento de aneurismas pequenosPlanejamento de tratamento e casos complexos
RadiaçãoNãoSim
ContrasteNãoSim, iodado
DuraçãoPoucos minutosRápida, mas exige preparo e acesso venoso
Pode ser repetido com frequência?SimCom restrições

Encontrei um aneurisma, e agora? Vigilância por tamanho

Descobrir um aneurisma não significa cirurgia imediata. A maioria dos aneurismas encontrados no rastreamento é pequena e passa a ser acompanhada com ultrassons periódicos. O intervalo entre os exames depende do diâmetro, pois aneurismas maiores crescem mais rápido.

Diâmetro da aorta abdominalClassificaçãoConduta habitual
Menor que 2,5 cmNormalSem necessidade de repetir o rastreamento na maioria dos casos
2,5 a 2,9 cmAorta “limítrofe” (ectasia)Novo ultrassom em 5 a 10 anos, conforme a diretriz e o perfil do paciente
3,0 a 3,9 cmAneurisma pequenoUltrassom a cada 3 anos
4,0 a 4,9 cmAneurisma moderadoUltrassom a cada 12 meses (em mulheres, a ESVS sugere intervalos menores a partir de 4,5 cm)
5,0 a 5,4 cmAneurisma grandeUltrassom a cada 6 meses em homens; em mulheres, o reparo já pode ser indicado
5,5 cm ou maisLimiar de tratamento em homensAvaliação para reparo eletivo

Os intervalos são referências gerais. A conduta é definida pelo cirurgião vascular, considerando sexo, velocidade de crescimento, idade e condições de saúde de cada paciente.

Quando o reparo é considerado

De forma geral, o tratamento eletivo é discutido quando o aneurisma atinge cerca de 5,5 cm em homens e 5,0 cm em mulheres, quando cresce rápido (1 cm ou mais em um ano) ou quando passa a causar sintomas. As diretrizes brasileiras do Ministério da Saúde também indicam o reparo eletivo acima de 5,4 cm. As duas principais formas de correção são a cirurgia aberta e o reparo endovascular (EVAR), com implante de endoprótese pelas artérias da virilha. A escolha depende da anatomia do aneurisma e do perfil clínico, e é sempre compartilhada entre médico e paciente.

Sinais de alerta: quando procurar o pronto-socorro

Embora a maioria dos aneurismas seja silenciosa, alguns sintomas podem indicar crescimento rápido, compressão de estruturas vizinhas ou ruptura:

  • Dor abdominal ou lombar intensa, súbita e contínua, que pode irradiar para a virilha
  • Sensação de pulsação forte na barriga, próxima ao umbigo
  • Queda de pressão, palidez, suor frio, tontura ou desmaio

Atenção: dor abdominal ou nas costas de início súbito em pessoa com aneurisma conhecido, ou com fatores de risco, é uma emergência. Procure imediatamente o pronto-socorro ou ligue para o SAMU (192).

Como reduzir o risco de crescimento do aneurisma

Não existe remédio que faça o aneurisma regredir, mas algumas medidas comprovadamente ajudam a reduzir o ritmo de crescimento e o risco cardiovascular global, que costuma ser elevado nesses pacientes:

  • Parar de fumar: é a medida mais importante. O tabagismo acelera o crescimento e aumenta o risco de ruptura.
  • Controlar a pressão arterial de forma regular.
  • Tratar o colesterol conforme orientação médica.
  • Manter atividade física moderada, liberada pelo médico, evitando esforços extremos em aneurismas grandes.
  • Não faltar aos exames de acompanhamento: a vigilância só protege se os intervalos forem cumpridos.

Avaliação da saúde arterial na Clínica EVAS

Na Clínica EVAS, a avaliação de aneurismas faz parte da nossa linha de Saúde Arterial, ao lado da investigação de carótidas e da doença arterial periférica. A consulta com o cirurgião vascular inclui a análise do histórico pessoal e familiar, dos fatores de risco e, quando indicado, o ultrassom com Doppler para medir a aorta com precisão e definir a melhor estratégia de acompanhamento.

Se você é homem, tem entre 65 e 75 anos e fuma ou já fumou, ou se alguém da sua família teve aneurisma de aorta, este é um bom momento para incluir essa avaliação no seu check-up vascular. Vale lembrar que muitos homens adiam consultas vasculares até que surja algum incômodo, um padrão que também discutimos no artigo sobre varizes em homens. Para conhecer outros motivos para procurar um especialista, leia também 5 sinais de que você deve consultar um especialista vascular.

Atendemos em São Paulo, Londrina e Rio de Janeiro. Encontre a unidade mais próxima e agende sua avaliação.

Perguntas frequentes sobre o rastreamento de aneurisma de aorta abdominal

Aneurisma de aorta abdominal tem sintomas?

Na maioria das vezes, não. O aneurisma costuma ser silencioso até atingir tamanhos grandes ou se romper. Alguns pacientes percebem uma pulsação na barriga ou têm dor abdominal e lombar, mas a ausência de sintomas não exclui a doença. Por isso o rastreamento por ultrassom é tão importante nos grupos de risco.

Qual exame detecta aneurisma de aorta abdominal?

O exame de rastreamento recomendado é o ultrassom da aorta abdominal, geralmente realizado como Doppler de aorta e ilíacas. Ele é rápido, indolor, não usa radiação nem contraste e mede o diâmetro da aorta com boa precisão. A angiotomografia fica reservada para o planejamento do tratamento.

Com que idade devo fazer o exame de aneurisma de aorta?

Para homens que fumam ou já fumaram, a recomendação é fazer o ultrassom entre 65 e 75 anos. Para homens e mulheres com pai, mãe ou irmão que teve aneurisma de aorta, a diretriz europeia de 2024 recomenda o rastreamento a partir dos 50 anos. Nos demais casos, a decisão é individual.

Se o primeiro ultrassom for normal, preciso repetir?

Em geral, não. Uma aorta com diâmetro normal aos 65 anos indica risco muito baixo de desenvolver um aneurisma relevante no futuro. Quando a aorta está levemente aumentada (entre 2,5 e 2,9 cm), o médico pode indicar um novo exame em alguns anos.

Mulher precisa fazer rastreamento de aneurisma de aorta?

Não de rotina, se nunca fumou e não tem histórico familiar. Mulheres que fumam ou fumaram, que têm parente de primeiro grau com aneurisma ou que já têm doença cardiovascular devem discutir o exame com o cirurgião vascular, já que nelas o aneurisma pode romper em diâmetros menores.

Todo aneurisma de aorta abdominal precisa de cirurgia?

Não. A maioria dos aneurismas encontrados no rastreamento é pequena e é apenas acompanhada com ultrassons periódicos. O reparo costuma ser considerado a partir de cerca de 5,5 cm em homens e 5,0 cm em mulheres, em caso de crescimento rápido ou quando surgem sintomas.

Qual médico procurar para avaliar aneurisma de aorta?

O especialista indicado é o cirurgião vascular. Ele avalia o risco, indica o exame de rastreamento, define os intervalos de acompanhamento e, quando necessário, discute as opções de tratamento, como a cirurgia aberta ou o reparo endovascular.